Acidente de ônibus que trazia trabalhadores do Pará para SC deixa mortos e dor para quem migrava atrás de emprego

Acidente de ônibus que trazia trabalhadores do Pará para SC deixa mortos e dor para quem migrava atrás de emprego

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No dia 25 de janeiro um ônibus que havia saído de Ananindeua (cidade localizada na região metropolitana de Belém) com destino a São José, em Santa Catarina, perdeu o controle e despencou por cerca de 50 metros em uma ribanceira, na altura de Guaratuba, trecho da BR-376 no Paraná. Até o momento não há o motivo certo do acidente, somente um depoimento do motorista que leva a suspeita de falha mecânica que acarretou na perda dos freios.

Esse triste acidente deixou 30 pessoas feridas e resultou na perda de 19 vidas de homens, mulheres e crianças, deixando famílias e amigos de luto e sem meios de levarem seus mortos para serem velados dignamente em sua terra natal. Entre as vidas perdidas estão João Paulo Ferreira dos Santos, de apenas 19 anos, que vinha em busca de emprego; Juliane de Jesus Botelho Garcia de 24 anos, que vinha junto com o namorado (que está em estado grave) para conseguir trabalho em Itajaí; Daílson Ferreira Pimentel paraense de 32 anos que era pedreiro em Timbó e retornava de uma visita familiar; Gabrielly Pinto Favacho, de 21 anos, que saiu de Marapanim (interior do Pará) junto com dois amigos para procurar emprego; Alexandre Costa da Cruz, que trabalhava no ônibus acidentado como carregador de bagagens e segundo a mãe tinha 26 anos; Christopher Silva, que completaria 7 anos em três de fevereiro, estava viajando no ônibus com o restante da família e que sobreviveram.

Além destes, faleceram no acidente Andreia Miranda dos Santos (27 anos), Emanuele Cristina Martins Miranda (26 anos), Iracelma de Carvalho e Souza (47 anos), Iranilda Carvalho de Souza (54 anos), José Renan da Silva Souza (18 anos), Roni Cristian Pinheiro de Almeida (21 anos), Thyago dos Santos Barros (32 anos), Valdenilson Gurjão de Souza (22 anos), Yasmin Carvalho de Souza (idade desconhecida). A tragédia ainda vitimou três pessoas da mesma família: o pai Antônio Lima, a mãe Geovanna Pinheiro, o filho Carlos Teixeira, de 14 anos, e a filha Emanuelle Pinheiro de apenas seis meses.

Por todo estado é perceptível no cotidiano o aumento de trabalhadores vindos do estado do Pará em busca de oportunidades e fugindo da crise que atinge, há mais de uma década, os estados brasileiros periféricos (em nível econômico). Nos caixas de supermercados, no chão das fábricas do interior, por baixo dos uniformes das empresas terceirizadas, morando em ocupações, é incontestável o aumento da presença de trabalhadores e trabalhadoras paraenses em SC, porém, é inexistente estudos do governo para, a partir deles, projetar políticas de acolhimento. Desde o transporte para chegarem em nosso estado, passando pelas condições de moradia precárias, até chegar na tão sonhada inserção no mercado de trabalho, a regra é a precariedade.

Um dos poucos “estudos” que evidenciam o grande fluxo de migração do Pará para Santa Catarina é um levantamento de dados internos feito pelo IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) sobre quais eram os estados de origem dos estudantes que ingressam na instituição, onde se chegou ao resultado de que parte significativa da totalidade dos ingressantes de outros estados é constituída por estudantes oriundos do Pará, cerca de 83 ingressantes no período de 2018-2019. Esse número parece baixo à primeira vista, porém, deve-se considerar que IFSC é uma das instituições mais concorridas do estado e que a maioria dos ingressantes do Pará já residem em SC com suas famílias e possuem redes de conhecidos que vieram antes deles.

Porém, não precisamos de comprovação no papel desse fluxo migratório, apesar de serem essenciais estudos para o desenvolvimento de políticas públicas, pois não precisa muito para notar a presença paraense em Santa Catarina. Com uma simples busca na internet é possível encontrar dezenas de grupos em redes sociais catarinenses de “paraenses em Santa Catarina”, restaurantes de comidas típicas do Pará, festas específicas de música brega, além de vários anúncios de “excursões” de ônibus anunciando um preço abaixo do mercado, veículos estes que percorrem em condições precárias uma distância maior do que se viessem de La Paz na Bolívia ou Santiago no Chile, desta forma já era previsível acontecer algo do tipo, infelizmente.

Apesar de um número grande de paraenses chegando ao nosso estado, o fluxo de trabalhadores que vêm ajudar a rodar as engrenagens da economia catarinense é muito variado. Somente no período de 2015-2017, por exemplo, chegaram ao solo catarinense cerca de 50 mil imigrantes do Haiti e do Senegal, fora os de outras nacionalidades (bolivianos, venezuelanos, etc.), além das migrações internas do país. Assim, número de trabalhadores e trabalhadoras vindos para cá é incalculável e o impacto das mudanças vindas com o processo de migração em massa já é sentida nos locais de estudo, moradia e trabalho. O triste é saber que foi somente após esse trágico acidente que a mídia burguesa passou a tocar na questão da migração, cabe agora organizar junto a esses trabalhadores e estudantes a luta por dignidade.

Nós do Sindicato Geral do Autônomo de Santa Catarina publicizamos nossa solidariedade com familiares e amigos das vítimas e estamos comprometidos nas comunidades, escolas e locais de trabalho a lutar por uma vida digna para todos os trabalhadores e trabalhadoras, independente de raça, sexo e origem territorial.

A Classe Trabalhadora Não Reconhece Fronteiras!

Lutar com os de Baixo Por Uma Vida Digna!

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