{"id":90,"date":"2020-11-02T20:01:00","date_gmt":"2020-11-02T20:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/?p=90"},"modified":"2021-02-19T15:03:51","modified_gmt":"2021-02-19T15:03:51","slug":"o-dia-de-finados-e-a-classe-trabalhadora-jamais-esquecer-nossos-mortos-e-nunca-perdoar-nossos-governantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/?p=90","title":{"rendered":"O Dia de Finados e a classe trabalhadora: Jamais esquecer nossos mortos e nunca perdoar nossos governantes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-vivid-red-color has-text-color\"><a href=\"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/?page_id=79\">Se\u00e7\u00e3o Popular<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>\u201cDois de novembro, c\u00e9u nublado, carregado<\/em><br><em>Ao lado do t\u00famulo relembro o chegado<\/em><br><em>A garoa no meu rosto se mistura \u00e0s l\u00e1grimas<\/em><br><em>A lembran\u00e7a de vidas que foram arrancadas, precocemente<\/em><br><em>A maioria inocentes ou n\u00e3o<\/em><br><em>Quem somos n\u00f3s pra julgar ou derrubar um irm\u00e3o<\/em><br><em>Cemit\u00e9rio lotado, parente revoltado\u201d (Atitude Feminina)<\/em><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-vivid-red-color has-text-color wp-block-heading\"><strong>Um ano de duras perdas para a classe trabalhadora<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A classe trabalhadora \u00e9 for\u00e7ada cotidianamente a se \u201cacostumar\u201d com as perdas e com as sequelas psicol\u00f3gicas e emocionais que elas trazem, mas esse ano superou tudo o que j\u00e1 vivenciamos nesse s\u00e9culo. Chegamos neste dia de finados com cerca de 160 mil vidas ceifadas pelo coronav\u00edrus e pela omiss\u00e3o genocida dos governantes, com aumento di\u00e1rio de 433 novos \u00f3bitos, em m\u00e9dia. Por tr\u00e1s desses n\u00fameros encontra-se uma verdade avassaladora: h\u00e1 quase um ano a classe trabalhadora est\u00e1 vivendo em luto cotidiano. Se apenas considerarmos as v\u00edtimas diretas da pandemia, e imaginarmos que para cada uma das 160 mil vidas perdidas temos de uma a dez pessoas de luto, d\u00e1 pra ter no\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o significativo \u00e9 esse 02 de novembro de 2020 para v\u00e1rias comunidades e fam\u00edlias espalhadas por todo o pa\u00eds. Para al\u00e9m dos n\u00fameros, h\u00e1 um fator que deixa esse dia ainda mais delicado para as fam\u00edlias brasileiras: a impossibilidade de uma despedida digna. Alguns n\u00e3o puderam acompanhar seus familiares e amigos na UTI, outros n\u00e3o puderam ver pela \u00faltima vez seus entes queridos devido aos caix\u00f5es lacrados. Alguns nem sequer puderam velar os corpos de seus mortos, enquanto outros ainda tiveram que assistir seus parentes serem enterrados em valas comuns. Sabemos que essas e muitas outras circunst\u00e2ncias esmagadoras da dignidade humana ocorreram de norte \u00e0 sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, para al\u00e9m das mortes diretas causadas pela pandemia, a classe trabalhadora teve que suportar tamb\u00e9m as mortes indiretas relacionadas com a conjuntura pand\u00eamica. Estado e capital aproveitaram a pandemia para avan\u00e7ar a pol\u00edtica genocida sobre a periferia, os povos ind\u00edgenas, quilombolas e camponeses em todo o Brasil. Nesse per\u00edodo a Pol\u00edcia Militar superou seus pr\u00f3prios recordes de letalidade em diversos estados do pa\u00eds. Somente no primeiro semestre de 2020 foram oficialmente 3.148 pessoas mortas pela PM em todo o territ\u00f3rio nacional (sem contar os mortos por mil\u00edcias e grupos de exterm\u00ednio compostos em sua grande maioria por policiais). No campo a viol\u00eancia tamb\u00e9m se intensificou, ceifando a vida de camponeses, militantes de movimentos sociais rurais, quilombolas e ind\u00edgenas A pandemia e o clima de impunidade abriram terreno prop\u00edcio para grileiros, garimpeiros e madeireiros avan\u00e7arem sobre \u00e1reas protegidas, intensificando conflitos e criando vetores de cont\u00e1gio, especialmente na Amaz\u00f4nia. Segundo pesquisa publicada pela Folha, nos munic\u00edpios que registram desmatamento e garimpo ilegal, os casos do novo coronav\u00edrus subiram quase 180%, em m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a necessidade do isolamento social com reclus\u00e3o dentro de casa, somado \u00e0 cultura machista impregnada em toda a sociedade, gerou aumento significativo da viol\u00eancia dom\u00e9stica e das taxas de feminic\u00eddio (assassinato de mulheres). Segundo uma pesquisa do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), as taxas de feminic\u00eddio cresceram 22,2% entre mar\u00e7o e abril deste ano em 12 estados do pa\u00eds, em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, diversos fatores aprofundados pela pandemia, da crise econ\u00f4mica \u00e0&nbsp; sensa\u00e7\u00e3o generalizada de inseguran\u00e7a social, geraram tamb\u00e9m aumento no registro de atendimentos referentes \u00e0 tentativas de suic\u00eddio. No Brasil, s\u00e3o em m\u00e9dia 12 mil pessoas que tiram a pr\u00f3pria vida por ano. Apesar de ainda n\u00e3o termos um n\u00famero consolidado de casos nesse ano (a \u00faltima pesquisa \u00e9 de 2018), especialistas apontam que certamente esse n\u00famero tende a aumentar, devido \u00e0 teoria dos 4Ds -Depress\u00e3o, Desamparo, Desesperan\u00e7a e Desespero \u2013 que foram brutalmente potencializados nos \u00faltimos meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Os militantes da causa do povo que ainda n\u00e3o est\u00e3o em movimento junto \u00e0 suas bases, devem ter ci\u00eancia que no retorno \u00e0 uma suposta \u201cnormalidade\u201d ir\u00e3o encontrar em seus locais de atua\u00e7\u00e3o (trabalho, estudo e moradia) companheiras e companheiros devastados pelas perdas e sequelas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas decorrentes desse momento de crise social, o que tende a piorar. J\u00e1 h\u00e1 previs\u00f5es que indicam que cerca de 115 milh\u00f5es de pessoas cair\u00e3o abaixo da linha da pobreza em todo o mundo, enquanto a fortuna dos bilion\u00e1rios j\u00e1 cresceu em 27%. Esta contradi\u00e7\u00e3o expressa n\u00e3o s\u00f3 a verdadeira face do capitalismo, mas tamb\u00e9m mostra que as bases sociais populares estar\u00e3o extremamente fragilizadas economicamente. No Brasil a pobreza extrema j\u00e1 vem aumentando nos \u00faltimos cinco anos e continua crescendo. De acordo com dados da PNAD, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2019 13,88 milh\u00f5es de brasileiros estavam na linha da pobreza extrema, o que representa cerca de 170 mil a mais do que no ano de 2018. Este \u00e9 um prato cheio para o aumento da superexplora\u00e7\u00e3o do proletariado marginal por parte dos patr\u00f5es, al\u00e9m de ser terreno prop\u00edcio para o aprofundamento de pr\u00e1ticas oportunistas como&nbsp; assistencialismo\/clientelismo pol\u00edtico. Por fim, indica que o problema da <strong><em>necessidade de emprego de tempo para subsist\u00eancia X necessidade de emprego de tempo na organiza\u00e7\u00e3o da luta, <\/em><\/strong>que j\u00e1 configura uma barreira a ser superada na organiza\u00e7\u00e3o do proletariado marginal, agora ser\u00e1 um desafio ainda maior para as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, esse feriado de finados ser\u00e1 um dos mais dif\u00edceis para a classe trabalhadora brasileira. Al\u00e9m de carregar a dor da perda de entes vitimados pela Covid-19, estamos lidando com a perda de outros milhares levados pelas atrocidades da sociedade capitalista. Por\u00e9m, neste dia 02 de novembro devemos relembrar nossos mortos, e da mem\u00f3ria deles tirar for\u00e7as para seguir, pois esse \u00e9 o significado do dia dos finados.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-vivid-red-color has-text-color wp-block-heading\"><strong>Da mem\u00f3ria dos nossos, tirar a for\u00e7a para seguir em luta: ritos coletivos para lidar com a morte<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>O cuidado com os mortos est\u00e1 presente em toda a hist\u00f3ria da humanidade e em todas as culturas, cren\u00e7as e religi\u00f5es. Das pir\u00e2mides do Egito \u00e0s urnas funer\u00e1rias de povos ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas, da Umbanda ao Islamismo, do ateu ao crente, todos os povos sempre tiveram e mantiveram pr\u00e1ticas de despedida e de homenagem \u00e0 mem\u00f3ria dos seus mortos. A morte \u00e9 o destino natural da vida, destino obrigat\u00f3rio para todo ser vivo na terra, e os ritos coletivos s\u00e3o parte da maneira que encontramos para lidar com os ciclos da vida, compartilhar e vivenciar o sentimento de perda, e transformar a dor em celebra\u00e7\u00e3o da vida, daqueles que se foram e daqueles que ficaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cdia dos finados\u201d tem sua origem no calend\u00e1rio cat\u00f3lico e vem sendo celebrado h\u00e1 mais de mil anos na Europa. Originalmente o feriado acontecia em 01 de novembro, mas como no Brasil esse dia j\u00e1 estava reservado para a Festa de Todos os Santos, o dia de finados passou para o dia seguinte, 2 de novembro. Muitas culturas, como a nossa, possuem esse dia da celebra\u00e7\u00e3o dos mortos, dia de honrar e preservar a mem\u00f3ria de entes queridos j\u00e1 falecidos. Na Espanha, um dos h\u00e1bitos das fam\u00edlias da classe trabalhadora no dia dos finados \u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o de um doce chamado \u201cosso dos santos\u201d para comerem em fam\u00edlia, e levar flores \u00e0 noite para seus mortos. Na Guatemala as fam\u00edlias da classe trabalhadora nesse dia soltam pipas como modo de chegar mais perto do c\u00e9u, costume este influenciado pela cultura ind\u00edgena. No Camboja parte da comemora\u00e7\u00e3o \u00e9 composta de corrida de b\u00fafalos e campeonatos de luta. No M\u00e9xico, o famoso \u201cDia de Los Muertos\u201d mobiliza a classe trabalhadora com muita m\u00fasica, bandeiras coloridas, altares com fotos de pessoas queridas que faleceram, flores, objetos pessoais dos homenageados, comida e bebida farta. Estes s\u00e3o apenas alguns dos diferentes modos como trabalhadoras e trabalhadores celebram o dia de finados pelo mundo, tirando for\u00e7as para enfrentar juntos as adversidades e fortalecer o amor e os la\u00e7os sociais entre aqueles que ficam, honrando a mem\u00f3ria dos que se foram.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso pa\u00eds predomina o costume de visita\u00e7\u00e3o aos cemit\u00e9rios e realiza\u00e7\u00e3o de cerim\u00f4nias religiosas das mais diferentes matrizes. Devido \u00e0 pandemia o dia de finados ter\u00e1 v\u00e1rias regras que variam de munic\u00edpio para munic\u00edpio, regras de seguran\u00e7a que v\u00e3o desde o uso de m\u00e1scara ao controle do n\u00famero de pessoas. Em algumas cidades os cemit\u00e9rios infelizmente permanecer\u00e3o fechados. Mesmo assim, independente de onde ou de como iremos relembrar e homenagear nossos mortos, o mais importante \u00e9 sabermos que n\u00e3o estamos passando por esse per\u00edodo nebuloso sozinhos, e nem que se trata de um sofrimento restrito \u00e0s nossas fam\u00edlias. Estamos atravessando esse mart\u00edrio enquanto classe, um mart\u00edrio da classe trabalhadora, n\u00e3o s\u00f3 do Brasil, mas de todo o mundo, das mortes em filas de hospitais aos caix\u00f5es lacrados sem direito \u00e0 vel\u00f3rio, da inseguran\u00e7a social \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia. Assim, a \u00fanica possibilidade de atravessarmos esse momento t\u00e3o duro \u00e9 coletivamente, atrav\u00e9s do fortalecimento m\u00fatuo, do companheirismo e da afirma\u00e7\u00e3o da vida. Por mais deprimente que esteja a situa\u00e7\u00e3o, enquanto classe j\u00e1 superamos outras situa\u00e7\u00f5es extremas como esta, e sabemos da nossa for\u00e7a quando estamos unidos e dispostos \u00e0 luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse dia de Finados para al\u00e9m de lembrarmos e homenagearmos nossos familiares, amigos, amores, companheiras e companheiros de luta e militantes tombados lutando por um mundo justo, devemos transformar a dor em for\u00e7a coletiva. Que a morte de cada um dos nossos n\u00e3o tenha sido em v\u00e3o, e que fa\u00e7amos de 2021 um ano de justi\u00e7amento e de luta contra todas essas atrocidades.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>S\u00f3 o povo salva o povo! Viva a for\u00e7a da classe trabalhadora!<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>Chega de sofrermos, \u00e9 hora de pela luta renascermos!<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\ud83c\udff4\ud83d\udea9<strong> Sindicato Geral Aut\u00f4nomo &#8211; SC<\/strong><br><strong>E-mail:<\/strong><em> siga.sc@protonmail.com<\/em><br><strong>Wpp:<\/strong> <em>(44) 98413-1493<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m de carregar a dor da perda de entes vitimados pela Covid-19, estamos lidando com a perda de outros milhares pelas atrocidades da sociedade capitalista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":91,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[20,21,24],"class_list":["post-90","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-popular","tag-calendario","tag-covid19","tag-popular","two-columns"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=90"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":247,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/90\/revisions\/247"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/91"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=90"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=90"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sigasc.lutafob.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=90"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}